Como se...
Luis Fernando Verissimo
... como se fosse a sua casa na próxima Idade do Gelo, tudo congelado, tudo coberto com um camada do que parecesse vidro, e você entrasse na casa mal podendo se equilibrar sobre o chão escorregadio, e tudo que você tocasse se desmanchasse como se fosse feito de açúcar, tudo, a poltrona do seu pai, as cortinas duras da sala de jantar, a cristaleira, e bastasse tocar em qualquer coisa com um dedo, as frutas artificiais sobre a mesa, as cadeiras em volta da mesa, e cairia em estilhaços – até a geladeira. E você entrasse no seu quarto atrás daquele livro do qual estivesse tentando se lembrar, o livro preferido da sua infância do qual tentasse se lembrar da cor e da capa e do título, e destruísse o quarto atrás do livro e quando o achasse ele também estivesse congelado e se desmanchasse, puf, entre seu dedos antes que você pudesse descobrir a cor, a capa e o título, e em seguida toda a casa ruísse ao seu redor com um ruído de gelo quebrando, e você ficasse de pé no meio de um alagado onde antes fora a memória da sua casa pensando pronto, agora não vou me lembrar de mais nada.
Um fim de tarde ela falou que sempre que via um pôr-do-sol bonito como aquele sentia que não era para ela. Não sabia explicar. Era como se o pôr-do-sol fosse para outros e ela estivesse vendo clandestinamente, espiando o que não lhe dizia respeito. Se sentia assim, uma penetra no espetáculo dos outros. Ele não entendeu. Você acha que não merece, é isso? Que é bonito demais para você? Que não tem direito a um pôr-do-sol dessa magnitude? Que o sol deveria se pôr com mais descrição para pessoas como você, que cada pôr-do-sol deveria ter uma versão condensada para os imerecedores da Terra, é isso? Não, não, disse ela. Eu mereço. Não é uma questão de humildade. É uma questão de... E deu outro exemplo. Sorvete de doce de leite. Sempre que comia sorvete de doce de leite era com a mesma sensação de clandestinidade. Aquilo, aquela doçura, aquele prazer, não podia estar assim disponível para todos como, como... como um pôr-do-sol! Era preciso haver uma hierarquia no direito às coisas magnificas, senão nenhuma escala de valores na vida tinha sentido. Ela lera em algum lugar que os fabricantes de sorvete de doce de leite tinham hesitado muito antes de lançar o produto no mercado. A preocupação deles era outra: temiam a corrupção irrecuperável da humanidade. Depois de provar sorvete de doce de leite as pessoas poderiam se ver fragilizadas, indefesas diante da auto-indulgência e da lubricidade, ou perdidas pela culpa. Tinham até pensado em vender o sorvete com um aviso, como os cigarros. “Podem causar dependência e ruína moral”. Mas a preocupação dera era com a vulgarização do sorvete de doce de leite. Não defendia uma aristocracia com exclusividade sobre o bom e o bonito. Só achava que ver um pôr-do-sol fantástico comendo sorvete de doce de leite deveria ser, assim, como se você fosse um dos escolhidos e o seu crachá autorizasse. Ele quase perguntou como ela o colocaria na sua hierarquia de valores, mas ela estava com o olhar perdido e ele achou melhor não.
Mesmo assim
(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)
Daqui a bilhões de anos o Sol explodirá, o sistema solar desaparecerá e a Terra virará pó, mas mesmo assim, Cleoci, tenha dó. Somos nada, do nada viemos e para o nada certamente iremos mas mesmo assim, Cleoci raciocinemos. Nada disto importa a vida é um sonho e o amor uma quimera, um vago clarão da Lua, mas mesmo assim, Cleoci não me deixe aqui na rua! Não fará qualquer diferença para os destinos do mundo, para a questão social ou para os planos da NASA mas mesmo assim, ó Cleoci eu não posso ir de cuecas pra casa!
Domingo, 26 de fevereiro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.